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18/03/2016
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Prosas dedicadas à pessoas próximas 7

A quatro mãos

– Que vista incrível!
Disse eu, em tom que poderia ser sarcástico, já que a vista era um cruzamento de ruas com sinais piscando, paredes pixadas e um posto de gasolina com frentistas sonolentos.

Mas realmente o panorama me agradava. Uma sexta feira, a noite tão simples e inesperada onde dois pares de pés vagantes pelas ruas de Botafogo se sentiam caminhando na lua. É a doce sensação do estar presente e encontrar um presente.
Ali entre um sorriso, uma confidência e uma cerveja, o conforto não permitia nem um cruzar de braços e o silêncio casual não incomodava. Estávamos cômodos. Não era a primeira nem a ultima vez que essa sensação me permeava, mas, cada vez que ela retorna, toca no miolo dos meus anseios, e tudo parece mais calmo.

Sob um céu sem lua nem estrelas, eu soube quem eu era, olhando-me dentro do espelho do outro. Um olhar me desenhou de um jeito inusitado e tão fácil de entender. Ilustrou-me mais pura, sem tantos rabiscos desnecessários. Um esboço claro.

Satisfação, descoberta, sem muita ânsia de querer mais. Suficiente. Ideal. Botafogo me apresentou novas facetas de suas ruelas e de minhas ruelas também.

Sexta feira desenhada em altos e baixos relevos, a quatro mãos.