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19/03/2016
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Prosas dedicadas à pessoas próximas 8

Grisalhices

O mundo está grisalho ao meu redor.

Parece que amarrei uma coleira nas nuvens de chuva, pois estas obedientemente vêm seguindo meus passos onde quer que eu vá. A gente tem mania de reclamar da chuva, é quase lugar-comum. Mas eu adoro. É bom pra lavar o mundo, aquietar os espíritos e limpar o ar. Até acho excitante um céu gris, rajado como os cabelos dos bem vividos.

Com tanto céu cinza, passei a refletir sobre essa cor. Para nós, o cinza vem com a maturidade, o desgaste, a velhice. É o desbotar dos cabelos, o desfazer das cores. Acho fantástico. Cabelo cinza, sinônimo de muitas histórias. Se filosofarmos sobre isso, o cabelo grisalho é o arquétipo do sábio. Primeiramente porque todo sábio é ilustrado de cabelos grisalhos; segundo, porque, esses fios descoloridos, são mais fortes e grossos que os fios de cor. Não precisam mais chamar atenção nem parecerem atraentes para o mundo. São o que são.
O cabelo grisalho é igual em todas as raças. É aí que se deixa de ser loiro moreno ou ruivo, para tornar-se de uma só ‘raça’: a raça dos vividos. Os cabelos sem cor dão vez para a cor dos olhos (sendo os olhos as janelas da alma, estes não ficarão grisalhos nunca…). Olhando por esse prisma, o cinza passou a ser uma cor muito interessante. É atraente pelo que significa, pelo termômetro de vivência que é, e não pela vaidade da cor. Assim como o céu gris. Cor fria, opaca, vivida. Tranquila e sincera. Se o cinza simboliza maturidade, os dias cinzas, por sua vez, carregam esse espírito reflexivo, amadurescedor. Gosto muito!

Do gris externo pode nascer um arco-íris interno. Afinal, os cabelos não serão coloridos para sempre. O céu não estará sempre azul.